Anos descartáveis

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Há pessoas que simplesmente tomam o caminho certo.

Há pessoas que simplesmente tomam o caminho errado. Eu fui uma delas. Porque o errado combina. Porque eu sempre tomo as decisões por impulso ou pressão. Porque eu quero mudar esse quadro, mas parece não haver fim a estrada errada, e a placa de retorno foi tirada de circulação.

Sempre aguardando a linha de chegada, sempre correndo, patinando, contando palavras tortas contra o vento. Ops, uma delas entrou no meu olho. Merda.

Há dias em que me sinto estacionada no meio de uma grande avenida. Carros desviam, buzinas tocam freneticamente, sinais de luz – para esses não ergo nem os olhos. Tudo movimenta-se rapidamente, quando eu vejo: bú! passou, anoiteceu; ainda estou estacionada,

parindo

a

partida.

Deste ano não passa, penso sempre. Sempre penso. Não passo desse ano. Esse ano não passa. Não, esse ano passa. Esse não passa ano. Ano não esse passa. Passa ano não esse. Año passa nesse ão. Passão ano esse no. Esse não ano passa. Passo esse, quero outro.

Tango

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Então eles dançaram. Dançaram o tango como nunca haviam feito: mãos juntas, coladas, passos dados com precisão, um perseguindo o outro; rostos delineados pela meia-face de cada um, carregando uma expressão sentida, pesada.

Dançaram lindamente a qualquer par de olhos que tivesse a honra de presenciá-los. Sincronia, romantismo, melancolia e olhares.

Olhares infindos, rasos feito uma gota de óleo na água, que escorria com naturalidade. Iam-se eles, o melhor casal que toda história teria registro.

A última escorregada da sapatilha, o último segurar de braço, a última jogada de cabeça para trás.

O beijo vermelho derrama, o olhar castanho pede, a mão grande segura. Ele ganha. Ela perde.

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Casal 20

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É 12 de junho e eles perderam o tesão.

- Fechei a loja mais cedo hoje.

- Vai na sua mãe?

- Não. Poderíamos jantar alguma coisa né.

- Sim.

- Vamos jantar na minha mãe?

- Vamos.

- Levanta do sofá, a novela já acabou.

- Quê?

- Levanta, vamos embora, sua mãe já está com sono.

- A benção, mãe.

- Vai com Deus, filho.

Chegando em casa ele, com a desculpa de ter despertado, largou-se no sofá e ligou a TV. Ela foi fumar um cigarro lá fora, seguido de um pulo debaixo da coberta, um arrepio de frio e uma ajeitada no travesseiro, dando aquele conforto.

Eles tem entre 20 e 23 anos. Ela saiu de casa para não ter que aguentar mais os pais e a mentalidade antiga. Ele, porque queria ser independente. Eles tem a casa deles. Mas não sabem o que é chegar de porre da balada. Não sabem o que é sorrir o sorriso de satisfação entre amigos, não sabem o que é flertar com outras pessoas, não sabem nem o que é flertar. Creem que assim é melhor, estão acostumados um com o outro.

Um casal jovem, com atitude de quem já está por acabar a vida. O verdadeiro ‘tá ruim mas tá bão’, o glorioso comodismo de uma relação de média duração, o resquício do primeiro amor, as cinzas do cigarro e a vontade superficial de mudar.

O que Paraitinga tem?

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Marília Monteiro

3:27 AM: Chegamos na então misteriosa São Luiz do Paraitinga. A parte central da cidade silenciava, como em toda boa madrugada, onde deu para ter as primeiras impressões daquele lugar: tranquilo e bonito. O dia chegou e com ele a vontade de desbravar aquele pequeno local aparentemente marasmático, que abriga aproximadamente 11 mil habitantes. O que teria Paraitinga de tão especial?

Bem, essa pergunta ainda nos é válida, mas podemos ter algumas razões bem convincentes para tentar respondê-la.

A começar por uma hospitalidade jamais vista em toda nossa breve vida de viajante: conhecemos uma moradora da cidade, que nos guiou por todos os lugares e nos ajudou despretensiosamente – apenas sabendo de nossas intenções acadêmicas -, mas assim, sem perguntar conta bancária, ou se vínhamos de boa família.

E foi assim com todos que conversamos. Sem exceção e sem figura de linguagem: abriram as portas para as forasteiras ituanas entrarem e se sentirem completamente em casa, com cheirinho de café, bolo e feijão no fogo.

A enchente de 2010 demoliu várias casas da parte baixa da cidade, sendo necessária completa reconstrução, que em apenas dois anos floresce novinha, com tinta quase fresca, nos inserindo numa espécie de maquete em tamanho real. O centro é forrado de casas novas e coloridas – sim, pintadas de rosa, verde, azul, marrom, amarelo; mas tudo combinando e sem poluição visual.

Aliás, poluição é uma palavra que passa longe da cidade, que abriga uma serra cheia de árvores, o rio Paraitinga e ruas repletas de… gente! Pouca quantidade de carro, que espera pacienciosamente o transeunte se afastar de seu espaço, para assim poder seguir, sem buzinas, sem xingamento, sem pressa.

Confessamos que nunca tínhamos ido à cidade, não sabíamos nada sobre sua história e foi aí que nos questionamos, como no início do texto, sem imaginar que encontraríamos as respostas de maneira mais agradável impossível.

São Luiz do Paraitinga é um local que parece ser isolado do mundo que a gente conhece. Lá o estresse típico das capitais não chega, lá as portas não carregam correntes pesadas e cadeados, os velhinhos passeiam livremente pela rua, todos se conhecem, especialmente depois da enchente.

Essa catástrofe natural, fruto de uma tromba d’água próxima à cidade, serviu para criar um laço entre os conterrâneos que ainda não se conheciam, colocando na mesma linha, crianças, velhos, ricos, pobres, negros e brancos. De um lado era abrir as portas para o socorro, de outro, encontrar abrigo e um banho quente cedido com uma dose de piedade, por quem teve a graça de não ver seus pertences boiarem pela casa, que enchia 70 centímetros por hora naquela noite. Os próprios moradores concordam que a união e a mobilização ocorrida nesses dois últimos anos ajudou para que a cidade tivesse essa cara de vila fraternal.

O tempo nessa cidade passa devagar, como que a caminhar pelos ponteiros do relógio, e não a voar feito um jato, da maneira que vemos por aqui. Fato comprovado por outros visitantes, para que não pensem que estamos encantadas demais.

É, meus caros, coube ao Divino Espírito Santo carregar todos os pedidos de fé daquele povo que sofreu, mas se ergueu rapidamente, e que também atribuiu toda sua força ao Santo Espírito celebrado tão fielmente todos os anos.

A festa é grandiosa e até chegar o domingo de Pentecostes, o ano para os luizenses contornou os bordados, as danças, as comidas e as preparações para o Divino, deixando até o Carnaval – que é fervorosamente festejado na cidade – trabalhando em função da festa do Santo. Parte do que se arrecadava nesse festejo, foi para as despesas da festa religiosa.

Ao perguntar aos membros da família festeira, que organizou absolutamente toda a festa, como eles aguentavam ficar o dia inteiro trabalhando para que tudo saísse perfeito, a resposta era unânime: “A força do Divino Espírito Santo é maior do que qualquer cansaço”.

A festa, a energia dessa cidade e esse povo são unificados, dependendo um do outro numa aliança de esperança, paz e força, muita força. É de encher os olhos de beleza e lágrimas, que caem naturalmente ao presenciar essa rara magia encontrada em São Luiz do Paraitinga, e até mesmo em relembrá-la com um aperto no peito e uma vontade de ficar um pouco mais.

Paraitinga

Foto por Marília Monteiro

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Tv na Tv?

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(texto criado para a revista fictícia “Cooltura”, para um trabalho da Faculdade Prudente de Moraes)

Marília Monteiro

Pensando um pouco na minha infância, tenho memórias claras em frente à TV. Era pra assistir desenho, programas de jogos – como o passa ou repassa -, a escolinha do Professor Raimundo (Slave Anysio!), o que fosse eu estava sempre lá.

Para cada época tinha um ritual diferente: no verão eu pegava um copão com água ou suco de caju, colocava as almofadas no chão fresquinho e parava ali diante da televisão. Já no inverno, pegava o cobertor mais surrado, jogava no sofá, onde me deitava, tirava um cochilo e ali ficava para assistir a TV Cruj.

A televisão sempre me atraiu e hoje vejo que os programas chamavam a minha atenção sim, mas acredito que esse movimento sofá-chão-almofadas-sala de estar era o que realmente me movia para frente do aparelho que me abria as portas do riso e do entretenimento.

Hoje em dia mal paro em casa, o aparelho fica na cozinha, porque mudei há pouco tempo e nem tem sofá na sala. É o bastante para tornar-se nítido o fato de que eu vejo muito menos TV agora. Mesmo quando estou de folga, aquele aconchego dela assistida com almofadas não existe mais, portanto, nem ligo muito para a pobrezinha filha de Chatô.

Também, com tanta modernidade que existe hoje – como diz minha avó –, o conteúdo passou a ser mais importante que esse ritual televisivo ao qual todos eram submetidos há uns 10 anos. Se podemos ver TV através do celular ou do computador, temos acesso às programações devido a alguns canais no youtube especializados em subir capítulos de novelas e séries, por que raios iremos parar o que estamos fazendo para não perder o que está passando na TV?

Não que a televisão esteja perdendo seu público, ou que vá sumir com a Internet, como muitos ‘Nostradamus da comunicação’ vem pregando por aí, mas que ela vai ter que se adaptar mais a tudo isso, ah vai.

Já existem web TVs com conteúdos exclusivos, canais para todos os gostos e boas produções. Também estão por aí aquelas cujos canais passam só filmes, séries e clipes de música, uma espécie de MTV das antigas, só que na rede.

E cresce cada vez mais o número de ‘programas informais’, que são esses hospedados num canal do Youtube ou qualquer outro site de vídeos, com pessoas que não tem necessariamente uma formação para aquilo e que fazem o maior sucesso. Dois exemplos disso são o Mas Poxa Vida, do colorista PC Siqueira e o Não faz Sentido, do ator Felipe Neto.

Com toda essa facilidade e acessibilidade, aquela caixinha preta, que hoje é fininha e tem até tela de LED, transmite sinais digitais e imagens em HD (High Definition), está se transformando e investindo tanto na tecnologia do aparelho, quanto na diversidade de seu conteúdo.

Qual o ritual que estamos criando para acessar esses conteúdos da TV e da Internet? Fata agora criarem programas para o público do celular, será que vira?

Cheiro de sucesso no cenário brazuca

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(texto criado para a revista fictícia “Cooltura”, para um trabalho da Faculdade Prudente de Moraes)

Marília Monteiro

Sempre gosto quando há lançamento brasileiro no mês. E que lançamento! Faroeste Caboclo promete revirar o baú e ativar a memória dos milhares de fãs do Legião Urbana, que há uns 10 anos ouviram incansáveis vezes a história de João de Santo Cristo, até decorar completamente. E cantaram junto outras inúmeras vezes.

Alguns fãs já reclamaram de antemão, dizendo que o filme vai distorcer toda história, como normalmente acontece com livros que viram filmes; mas sinceramente, acredito que cada adolescente daquela época criou o enredo no seu imaginário, e pode apostar: nenhum é igual.

Portanto, o filme deveria ser bem recebido, visto que é a manifestação do que o diretor criou, que nada mais é do que mais uma das milhões de criações que cada um de nós fizemos. Depois falamos se gostamos ou não, falamos de técnica, e tudo que gostamos de palpitar sobre cinema.

Outro lançamento que provavelmente estará nos cinemas interioranos é o Batalha dos Mares (Battleship), do mesmo diretor de Hancock, Peter Berg. O filme é baseado no jogo Batalha Naval, quem nunca jogou? Estou achando que os cineastas querem nos pegar pelas memórias da infância!

Independente disso, Batalha dos Mares vai contar com uma participação da cantora Rihanna e teve um orçamento de 150 milhões de dólares. É dólar pra caramba, alguma coisa tem que ser boa nessa superprodução!

E pra quem gosta de um dramão, a aposta é no Um Homem de Sorte, que tem Zec Efron e Taylor Schilling protagonizando o casal principal da obra e também no Upside Down, uma ficção científica estrangeira, que me interessou pela história e também por não fazer parte do clã do Tio Sam. Uma boa pedida para os alternativos de plantão!

Bom, meu palpite para os filmes que estarão em cartaz aqui na região é: Faroeste Caboclo, Battleship, A Casa Silenciosa e Armadilha. E vocês? Quais filmes vão querer ver no cinema e quais vão baixar?

Até mais! ;)

Olha lá – matéria sobre a Umbanda

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Recebi com muito carinho a pauta sobre a religião Umbandista para a revista Trilhos Urbanos de Novembro de 2011.

Sabia que seria um desafio e tanto, era uma matéria importante e relativamente grande, além de ser um assunto completamente desconhecido por mim.. Fiquei um bom tempo pensando em como abordar o tema, mas foi só começar que as ideias começaram a surgir e eu fui me apaixonando pela diversidade que ele traz..

Espero que gostem (:

http://issuu.com/paulostucchi/docs/trilhos_novembro

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Odó-Iyá, rainha do mar!

Argumente se puder com o filme Obrigado por fumar

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Marília Monteiro
Jason Reitman, diretor de Amor sem escalas e do bem sucedido Juno, dirigiu em 2005 a comédia Obrigado por fumar. O filme conta a história de Nick Naylor (Aron Eckhart), um lobista que defendia o direito dos usuários de cigarro dos Estados Unidos. Naylor mostra como os bons argumentadores trabalham e, principalmente, como pode oscilar a imagem de empresas com produtos polêmicos, como o cigarro.

Eckhart, que também foi o Duas Caras em Batman – O cavaleiro das trevas, interpreta com maestria seu personagem que, como o próprio descreve, tem o dom da fala e argumentação. Naylor convive com as visitas de seu filho, o tímido Joey (Camreon Bright, atual Alec Volturi da saga Crepúsculo) que vem aprendendo com o dom do pai e se orgulha dele.

O local de trabalho de Naylor é a Academia dos Estudos do Tabaco, que é patrocinada em sua maior parte por indústrias tabagistas. Mostrando de perto como é ser um porta-voz e articulador de comunicação, o personagem de Eckhart parece satirizar quem ousa por à prova sua argumentação afiada; o que seria justo e necessário para manter a imagem dessas empresas ditas como perigosas.

Diferentes pontos de vista e inversão de valores são algumas das armas que Naylor usa para se manter no emprego e cultivar o sucesso das instituições que trabalha. Além disso, sua própria imagem autoconfiante e desafiadora já é um marketing poderoso para as empresas de cigarro.

Em uma cena, no começo do filme, Joey pergunta ao pai por que o governo americano é o melhor do mundo e, entre outras falas, Naylor o responde e mostra  indiretamente a essência de seu trabalho: “O que faz parte do melhor governo do mundo? Os crimes, a pobreza, a educação? O governo americano com certeza não é o melhor do mundo, talvez seja pior que o da maioria. Fazemos uma boa propaganda, isso sim”.

O lobista enfrenta uma série de ativistas pró-saúde, pessoas que estão à beira da morte e sentem raiva dele, sofre um sequestro e quase é morto, entrega todas suas informações valiosas para uma jornalista com quem se envolve, e consegue se livrar de tudo isso, invertendo o jogo com seu poder de persuasão.

No final da trama, Naylor acaba treinando homens de alto cargo de uma empresa de celulares, para tratar do assunto ‘O uso do celular causa tumores no cérebro’. Com certeza, a comunicação é a maior parcela do sucesso ou declínio empresarial. É esse tema, entrelaçado com um humor ácido, que faz valer a pena assistir Obrigado por fumar.

Nosso Papai Noel é tropical!

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Marília Monteiro

Lancei uma pergunta aos meus amigos, sobre o que eles lembram quando se fala em Natal. Alguns responderam com ênfase religiosa, uns recordaram as férias, outros viagens e presentes, mas a maioria incluiu a verdadeira comilança que acontece nessa época, juntamente às outras preferências.

Já repararam como comemos no Natal? É peru, pernil, carne de porco, bacalhau, arroz, farofa, castanhas, rabanada, além das diversas sobremesas que a família traz para contribuir com a ceia. Nem paramos para pensar que o natal brasileiro é no verão, e tanta comida assim não faz muito bem.

“No frio precisamos de mais comida, e alimentos energéticos porque gastamos mais energia tentando mantê-lo aquecido, enquanto no verão isso não é necessário. Por esse motivo comemos mais no inverno e preferimos algo leve para o calor”, afirma a nutricionista Cristiane Cedra.

É lindo ver toda aquela magia do natal nos países frios, das casinhas cobertas de neve, as árvores branquinhas, lareira acesa e o conforto do lar familiar quentinho, com a mesa cheia de comidas quentes.

Mas por aqui é diferente. Abrimos portas e janelas para o vento entrar, quando chove fica aquele cheirinho gostoso e sempre tem uma tia para dizer “Que bom que choveu, estava muito abafado”, ligamos o som, o vinho é substituído pela cerveja e nosso Papai Noel veste bermuda com camiseta regata, não dá para negar.

Então por que não inovar nesse ano e fazer uma ceia de natal que combine com a estação em que estamos?

A nutricionista Lucilene Andrade dá algumas dicas para quem quer algo saudável, sem deixar de ser gostoso: “Prefira carnes brancas, como aves e principalmente peixes, que agora já é mais presente nas mesas essa época. Usar aveia ou farelo de quinoa para as farofas, castanhas, frutas in natura ou secas para sobremesa. A alta ingestão de carnes e massas não é recomendada”.

Andrade ainda dá uma sugestão que vai além da alimentação: “Procure aproveitar mais o momento da ceia, trocar esse carinho com os familiares e não focar somente na comida”.

Quem mexeu na minha independência?

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A bagunça portuguesa e a nossa situação.

Marília Monteiro

Basta o mês de agosto se aproximar de setembro e, aqui nas cidades do interior, já ouvimos as cornetas da fanfarra se preparando para o dia de sete de setembro. Quando éramos criança, essa data não passava de um motivo para não ter aula e ver, ou ser visto por todos desfilando na maior avenida da cidade. Sem contar o almoço na casa da avó depois.  Por fim, tantos interesses e pretextos foram adicionados a essa data que o real motivo sobre a independência foi substituído por churrasco e cerveja de feriado.

O nosso país sempre foi uma bagunça desde sua descoberta, mas é na época da independência que esse fato se torna mais claro. Enquanto no começo do século XIX (1800-1899) nossos vizinhos Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile se desprendiam do Império espanhol e colocavam seus próprios filhos no comando, o Brasil recebia a Família Real vinda diretamente de Portugal para morar o Rio de Janeiro.

Todos os países latino-americanos tinham manifestantes querendo sua independência antes mesmo do século XIX, inclusive o tupiniquim. Movimentos como a Conjuração Baiana e a Inconfidência Mineira eram a voz da população e da elite querendo impostos mais baixos – quem, naquela época, diria que depois de séculos ainda lutaríamos por isso? – e menos pressão de Portugal.

Enfim, com os manda-chuva instalados no Rio, o primeiro suspiro independente foi a abertura dos Portos brasileiros à Inglaterra, que estava com a indústria a todo vapor e queria consumidores. Oito anos depois da chegada, a família real teve que voltar para Portugal, mas Dom João VI deixou aqui seu filho, Dom Pedro I para tomar conta do Brasil.

“Nessa época surgiu um movimento de elite capitaneado por grandes comerciantes de donos de terra e uma pressão muito forte dos brasileiros em geral, para que Dom Pedro I fosse o Rei do Brasil, mas que houvesse um país independente. E ele topou.”, afirmou o historiador Luiz Roberto de Francisco.

Dom Pedro era popular por aqui e queria ficar no país verde-amarelo, mas Portugal percebeu e ordenou que ele voltasse para sua terra natal, ameaçando uma batalha contra o Brasil. “Ele ficou muito irritado com essa situação e outras pressões que sofria do reino português, então resolveu declarar a independência do Brasil imediatamente, para que não houvesse mais nenhuma ligação entre os dois países”, disse de Francisco. O verdadeiro “se não é meu, também não será seu”.

O que acontece depois, todos sabem: às margens do rio Ipiranga, montado em seu cavalo branco, com toda população de São Paulo ao seu redor, num grande evento, Pedro I dá um grito forte de bravura “Independência ou morte!”, todos aplaudem e o Brasil finalmente caminha com as próprias pernas! Nada disso.

O historiador Marcelo Leite falou que “esse simbolismo patriótico faz parte dos recursos usados pela república para criar heróis nacionais”. Ninguém além da tropa que viajava com Dom Pedro presenciou a fala histórica. E também não havia cavalo branco, nem festa.

“Eles foram do Rio de Janeiro para São Paulo, a viagem era longa e feita sobre mulas margeando o riacho do Ipiranga. Durante uma parada para se recompor, Pedro I toma a tal decisão e declara ali, apenas para quem viajava com ele que a partir daquele momento o Brasil estaria independente de Portugal”, afirmou o também professor De Francisco.

Apenas quando chegaram a São Paulo é que essa notícia foi divulgada e enfim difundida entre a população local. Dois anos depois foi lançada a Constituição de 1824, que dava suporte ao então Rei Pedro I, para que ele governasse praticamente num regime absolutista.

“A constituição de 1824 só foi revogada com a Proclamação da República. É bom salientar que em 1838 foi criado o IHGB, Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, juntamente com o Colégio Pedro II. Eles tinham a intenção de desligar Brasil de Portugal com o estudo da História, enquanto o colégio preparava a elite governamental”, garantiu Leite.

A escravidão continuou, o país estava sob um regime moderador rígido, ainda nas mãos de um português e economicamente no mesmo lugar onde estava antes da independência. Ser independente não significou ser autônomo.

“O Brasil foi se libertando pouco a pouco. Dom Pedro foi para Portugal em 1835 porque seu pai havia morrido e ele não queria deixar o irmão, Dom Miguel governar. Aqui ficou Pedro II, com cinco anos como príncipe herdeiro do trono. Aí foi uma bagunça”, contou o professor de história Raphael Trevisani.

Como Pedro II não podia governar, as regências Una e Trina tomaram conta do Brasil, mas não havia uma figura representativa na liderança do país. Foi quando começaram estourar as revoltas dos estados como Sabinada, Balaiada e Farroupilha.

Aos 14 anos Dom Pedro II assumiu o Brasil e criou um Parlamentarismo, onde ele reinava, mas não governava, o poder moderador foi mantido e havia primeiros ministros, que eram substituídos quando o rei quisesse.  Depois de 42 anos chega a República no Brasil, inspirada em movimentos iluministas e logo após a velha democracia que conhecemos.

“Hoje não dá para falar em independência sem ter uma visão geral do mundo. Na economia, por exemplo, não há autonomia. Os países são interdependentes, do contrário não há comércio exterior, importação e exportação, ficaria tudo parado”, disse Trevisani.

De Francisco defende que os países que não dependem mais de outros para suas decisões, com representantes eleitos pelo povo conseguem ter uma independência política, desde que a nação esteja apta a fazer uma boa escolha. “Hoje em dia escolhe-se o candidato que tiver o melhor marketing, nem todos estão preparados”, concluiu.

Já Marcelo Leite acredita que os brasileiros têm muito que lutar. “O Brasil tem uma dívida externa alta, as multinacionais instaladas aqui usam nossa mão de obra a um preço baixo e levam toda riqueza pra seus países, nossos governantes não investem no que realmente deveriam e nossa vida não é respeitada, muito menos preservada. Há um caminho longo até nossa independência”.

Brava gente brasileira!
Longe vá… temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

 

O que você ainda não sabe sobre essa história é que..

-Regente Feijó foi um grande intelectual, era deputado na época de Dom Pedro I, mas fazia parte do movimento republicano. Como representante brasileiro ele foi até Portugal e falou muito mal do governo português, tendo que fugir escondido para a Inglaterra e só depois retornar ao Brasil.

-A maçonaria era muito presente nessa época. Nas reuniões maçônicas era permitido falar do governo, comentar sobre o rei e as ideias revolucionárias sem que ninguém soubesse.

-A dívida externa brasileira começou quando Portugal exigiu dois milhões de libras esterlinas como indenização por ter perdido o poder sobre o Brasil. Como nosso país não tinha condições de pagar e era alvo comercial da Inglaterra, ela bancou a despesa portuguesa.

-Dom Pedro I foi um péssimo administrador. Fez dívidas, perdeu guerras e há relatos que Dona Leopoldina morreu devido aos maus tratos de seu marido, que era muito violento.

- Durante 42 anos do reinado de Pedro II a constituição previa que ao todo 11 primeiros ministros passassem pelo país, mas o Rei ia substituindo, chegando ter 39 no total.