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noites desperdiçadas

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Num quarto à meia luz, em alguma hora da madrugada, ela passava mais uma das noites que julgava perdidas. Olhava para aquele rosto em processo de masculinização, que a beijava sufocada e desesperadamente, como se tivesse que aproveitar o que logo acabaria. O corpo era bonito, com apenas uma bermuda branca e sua roupa íntima, peito e braços e delicadamente definidos, cabelo gostoso e cara bonita. O uísque agravara a situação e euforia, ela sorria, corria as mãos por corpo e cabelo, rosto e braços, beijava-o com desejo, mas sem satisfação.
Parou com aquela coisa que não sabia bem explicar o que era, sexo ela conhecia, mas não era o que acontecia, era como um ensaio para tal, que costuma ser bom. Não estava feliz. Olhava, respirava fundo, olhava novamente, tentando enxergar um rosto que a passasse um sentimento bom, conforto, carinho, quem sabe até amor. Mas não o encontrava, era só um rosto acompanhado de corpo que a queria devorar. Se sentia mal, mesmo com um pouco de álcool, sua cabeça pensava direito e sabia classificar aquela situação. Parou, desgrudou daquela carne que ao seu lado colava como chiclete no corpo desproporcional, porém bonito e desejado pelo rapaz.
Levantou meio zonza, mas já prticamente sóbria. Abriu a porta do quarto, o corredor estava escuro também, só com a luz e barulho da televisão ligada lá no fundo, com meia dúzia de gente que dizia assistir. Estava na casa de sua amiga. Saiu pelo jardim da frente, com as pernas moles mas pisando forte, como se o chão tivesse culpa de suas atitudes, tudo era motivo. Sentiu asco de si, com o braço que esfregava na boca, como que para tirar o gosto daquela noite insistente em não acabar. Foi até a piscina, molhou as mãos que automaticamente dirigiram-se para o rosto e cabelos, enfraquecendo a maquiagem mais-que-borrada e a escova feita em casa. O perfume com cheirinho de flor nem se sentia mais. Queria saber o por quê daquilo, queria algo mais completo, pensava no amor quase dormido que sentia por um velho amigo e sabia que era recíproco, e que, se fosse ele no lugar do bonitinho ela estaria plena e ainda na cama, sem asco nem desejo de a noite acabar. Existia vergonha entre os dois, queriam não ter defeitos um para o outro, sem saber que isso era o que fazia esse amor dormir. – Pensava olhando fixamente para a grama, com olhos baixos mas sem piscar. Se sentiu esvaziada, o único que funcionava era o coração batendo quase imperceptível, fazendo um calorzinho.
Voltou para a sala, deitou no sofá para ver o filme. Adormeceu. Acordou e viu, com os olhos embaçados, a amiga dizendo que a carona tinha chegado. Foi embora e no dia seguinte acordou cedo, com insônia. Aquela sensação ruim tinha passado, mas do amigo ela ainda lembrava.
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Questão de opção

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Dia desses, encontrei um velho amigo o qual não via há muito tempo. Por acaso, andávamos na mesma rua e resolvemos tomar uma cerveja.
Conversa vai, conversa vem, e o sujeito me pergunta:

– E você? Parou de ir à missa?
Nós frequentávamos o grupo de jovens de uma Igreja Católica aqui perto de casa.
Respondi – Não, não.. Faz tempo que nem ponho os pés lá na Igreja! – ao que ele replica:

– Jura? Nossa, mas você não pode ficar assim, sem Deus! Eu vou todo domingo na missa! – exclamava vitorioso e satisfeito.
– Mas eu não fico sem Deus; sou espiritualista há um bom tempo, aliás, desde que parei de ir no grupo.
– O QUÊ ?
Só por aí, eu vi que aquele papo não renderia boas coisas..
– Sim, minha mãe havia entrado e você sabe que eu sempre questionei muito o catolicismo, daí foi quando me identifiquei com o espiritualismo.
– Hum…
Calado e espantado demais, eu queria mudar de assunto, mas ele insistiu:
– Hahaha, então você recebe os espíritos e faz macumba? Olha, minha sobrinha tava com mau olhado esses dias, dá pra você cura-la?
Meu querido, eu sou espiritualista, não mãe de santo, curandeira.. Ô coisa difícil de se entender e distinguir..
– Hehehe, não. Eu NÃO curo ninguém, NÃO faço macumba nem simpatias.. (e NÃO quero te explicar isso, porque você não vai entender. – pensamentos correm soltos quando alguém me diz essas besteiras..). Mas se você quiser – respondi mais educadamente – pode ir lá qualquer dia, é bem tranquilo, não acontece nada do que pensam por aí, não tem sacrifícios e nem coisas malignas, apenas lemos o evangelho e o discutimos.
– Ah não, obrigada! Eu não gosto de mexer com essas coisas de morto que não é morto, gente que vem puxar o pé dos outros à noite.. Comigo não tem vez, eu não mexo com eles e eles não mexem comigo, sai fora!
Confesso que gosto de analisar a reação das pessoas perante algumas situações, mas essa já estava me irritando!
– Não, o que é isso.. Não é nada disso que você pensa, ninguém puxa o pé de ninguém e na nossa filosofia, não existem mortos; a morte é apenas uma passagem, mas seu espírito permanece. O legal é que você encontra muitas respostas indo às reuniões.
– Que espírito permanecer o que! Imagina só, se isso fosse verdade, eu deveria ter nascido com a imagem de um velho ranzinza, imagina “quantas vidas eu já não vivi” AHAHAHAHAH

– Hahaha. É, talvez seja por isso que você anda com pensamentos tão, digamos, leigos.imagem-448

-O que quis dizer com isso?

-Esquece. – Garçom, traz a conta por favor! – Tenho que ir, querido; bom te ver. (duro seria te rever..)

Imagine se eu tivesse falado em ateísmo..