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Quem mexeu na minha independência?

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A bagunça portuguesa e a nossa situação.

Marília Monteiro

Basta o mês de agosto se aproximar de setembro e, aqui nas cidades do interior, já ouvimos as cornetas da fanfarra se preparando para o dia de sete de setembro. Quando éramos criança, essa data não passava de um motivo para não ter aula e ver, ou ser visto por todos desfilando na maior avenida da cidade. Sem contar o almoço na casa da avó depois.  Por fim, tantos interesses e pretextos foram adicionados a essa data que o real motivo sobre a independência foi substituído por churrasco e cerveja de feriado.

O nosso país sempre foi uma bagunça desde sua descoberta, mas é na época da independência que esse fato se torna mais claro. Enquanto no começo do século XIX (1800-1899) nossos vizinhos Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile se desprendiam do Império espanhol e colocavam seus próprios filhos no comando, o Brasil recebia a Família Real vinda diretamente de Portugal para morar o Rio de Janeiro.

Todos os países latino-americanos tinham manifestantes querendo sua independência antes mesmo do século XIX, inclusive o tupiniquim. Movimentos como a Conjuração Baiana e a Inconfidência Mineira eram a voz da população e da elite querendo impostos mais baixos – quem, naquela época, diria que depois de séculos ainda lutaríamos por isso? – e menos pressão de Portugal.

Enfim, com os manda-chuva instalados no Rio, o primeiro suspiro independente foi a abertura dos Portos brasileiros à Inglaterra, que estava com a indústria a todo vapor e queria consumidores. Oito anos depois da chegada, a família real teve que voltar para Portugal, mas Dom João VI deixou aqui seu filho, Dom Pedro I para tomar conta do Brasil.

“Nessa época surgiu um movimento de elite capitaneado por grandes comerciantes de donos de terra e uma pressão muito forte dos brasileiros em geral, para que Dom Pedro I fosse o Rei do Brasil, mas que houvesse um país independente. E ele topou.”, afirmou o historiador Luiz Roberto de Francisco.

Dom Pedro era popular por aqui e queria ficar no país verde-amarelo, mas Portugal percebeu e ordenou que ele voltasse para sua terra natal, ameaçando uma batalha contra o Brasil. “Ele ficou muito irritado com essa situação e outras pressões que sofria do reino português, então resolveu declarar a independência do Brasil imediatamente, para que não houvesse mais nenhuma ligação entre os dois países”, disse de Francisco. O verdadeiro “se não é meu, também não será seu”.

O que acontece depois, todos sabem: às margens do rio Ipiranga, montado em seu cavalo branco, com toda população de São Paulo ao seu redor, num grande evento, Pedro I dá um grito forte de bravura “Independência ou morte!”, todos aplaudem e o Brasil finalmente caminha com as próprias pernas! Nada disso.

O historiador Marcelo Leite falou que “esse simbolismo patriótico faz parte dos recursos usados pela república para criar heróis nacionais”. Ninguém além da tropa que viajava com Dom Pedro presenciou a fala histórica. E também não havia cavalo branco, nem festa.

“Eles foram do Rio de Janeiro para São Paulo, a viagem era longa e feita sobre mulas margeando o riacho do Ipiranga. Durante uma parada para se recompor, Pedro I toma a tal decisão e declara ali, apenas para quem viajava com ele que a partir daquele momento o Brasil estaria independente de Portugal”, afirmou o também professor De Francisco.

Apenas quando chegaram a São Paulo é que essa notícia foi divulgada e enfim difundida entre a população local. Dois anos depois foi lançada a Constituição de 1824, que dava suporte ao então Rei Pedro I, para que ele governasse praticamente num regime absolutista.

“A constituição de 1824 só foi revogada com a Proclamação da República. É bom salientar que em 1838 foi criado o IHGB, Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, juntamente com o Colégio Pedro II. Eles tinham a intenção de desligar Brasil de Portugal com o estudo da História, enquanto o colégio preparava a elite governamental”, garantiu Leite.

A escravidão continuou, o país estava sob um regime moderador rígido, ainda nas mãos de um português e economicamente no mesmo lugar onde estava antes da independência. Ser independente não significou ser autônomo.

“O Brasil foi se libertando pouco a pouco. Dom Pedro foi para Portugal em 1835 porque seu pai havia morrido e ele não queria deixar o irmão, Dom Miguel governar. Aqui ficou Pedro II, com cinco anos como príncipe herdeiro do trono. Aí foi uma bagunça”, contou o professor de história Raphael Trevisani.

Como Pedro II não podia governar, as regências Una e Trina tomaram conta do Brasil, mas não havia uma figura representativa na liderança do país. Foi quando começaram estourar as revoltas dos estados como Sabinada, Balaiada e Farroupilha.

Aos 14 anos Dom Pedro II assumiu o Brasil e criou um Parlamentarismo, onde ele reinava, mas não governava, o poder moderador foi mantido e havia primeiros ministros, que eram substituídos quando o rei quisesse.  Depois de 42 anos chega a República no Brasil, inspirada em movimentos iluministas e logo após a velha democracia que conhecemos.

“Hoje não dá para falar em independência sem ter uma visão geral do mundo. Na economia, por exemplo, não há autonomia. Os países são interdependentes, do contrário não há comércio exterior, importação e exportação, ficaria tudo parado”, disse Trevisani.

De Francisco defende que os países que não dependem mais de outros para suas decisões, com representantes eleitos pelo povo conseguem ter uma independência política, desde que a nação esteja apta a fazer uma boa escolha. “Hoje em dia escolhe-se o candidato que tiver o melhor marketing, nem todos estão preparados”, concluiu.

Já Marcelo Leite acredita que os brasileiros têm muito que lutar. “O Brasil tem uma dívida externa alta, as multinacionais instaladas aqui usam nossa mão de obra a um preço baixo e levam toda riqueza pra seus países, nossos governantes não investem no que realmente deveriam e nossa vida não é respeitada, muito menos preservada. Há um caminho longo até nossa independência”.

Brava gente brasileira!
Longe vá… temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

 

O que você ainda não sabe sobre essa história é que..

-Regente Feijó foi um grande intelectual, era deputado na época de Dom Pedro I, mas fazia parte do movimento republicano. Como representante brasileiro ele foi até Portugal e falou muito mal do governo português, tendo que fugir escondido para a Inglaterra e só depois retornar ao Brasil.

-A maçonaria era muito presente nessa época. Nas reuniões maçônicas era permitido falar do governo, comentar sobre o rei e as ideias revolucionárias sem que ninguém soubesse.

-A dívida externa brasileira começou quando Portugal exigiu dois milhões de libras esterlinas como indenização por ter perdido o poder sobre o Brasil. Como nosso país não tinha condições de pagar e era alvo comercial da Inglaterra, ela bancou a despesa portuguesa.

-Dom Pedro I foi um péssimo administrador. Fez dívidas, perdeu guerras e há relatos que Dona Leopoldina morreu devido aos maus tratos de seu marido, que era muito violento.

– Durante 42 anos do reinado de Pedro II a constituição previa que ao todo 11 primeiros ministros passassem pelo país, mas o Rei ia substituindo, chegando ter 39 no total.

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Prato do dia

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Marília Monteiro

Há aproximadamente 10 anos é polemizada a questão do sistema de cotas no Brasil. A lei instituída sugere que concursos públicos para empregos e faculdades públicas reservem uma porcentagem de vaga para classes sociais mais desfavorecidas.

O IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, aponta que mais de 11 milhões de pessoas nascidas na terra tupiniquim são negras. Enquanto isso, a ABEP, Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa, informa que aproximadamente 30% da população brasileira está na classe A e B. Com base na história sócio-econômica brasileira e dando uma olhada nos dados apresentados, conclui-se que, no mínimo 70% desses 11 milhões de afrodescendentes  brasileiros estão nas classes menos favorecidas.

Ou seja, o sistema que era de cotas sociais tornou-se de cotas raciais, devido ao grande número de “black-powers” pertencentes à classe C e D – sem esquecer dos índios. É claro que iam reclamar.

Movimentos e passeatas contra esse sistema. De um lado os “burgueses” reclamando da diminuição de vagas nas universidades públicas, que em sua maioria são constituídas de pessoas que podem pagar um cursinho particular para agarrar o troféu da Federal ou Estadual, de outro, negros e índios agradecendo a oportunidade; e ainda numa outra face – a da cereja do bolo – brancos, negros, índios, pardos e misturados desse meu Brasil brigando por causa da discriminação que isso tudo gerou.

Era evidente que ia dar problema separar classes e raças assim, tão declaradamente. Sim, porque o preconceito brasileiro é coberto por panos quentes e na base do ‘somos todos irmãos brasileiros’ camufla-se muita coisa.

Não sou contra a cota social, sou contra a necessidade de um programa paliativo funcionando como placebo educacional.

Sistema de cotas, Bolsa Escola – incentivo financeiro para estudar, Escola da Família – trabalhe para mim e eu te dou uma bolsa na faculdade, são programas criados pelo governo para tapar o grande problema da educação no Brasil com a mais furada das peneiras.

Por enquanto as cotas estão realmente ajudando muitos desfavorecidos, o que é um grande avanço. Pessoas que nunca pensaram em entrar numa universidade, hoje podem se empenhar e conseguir, mas enquanto a educação básica não for adequada, cotas e bolsas continuarão servindo como tampa pequena numa panela grande. O vapor da ignorância vai continuar solto.

Há pouco tempo a professora Amanda Gurgel, do Rio Grande do Norte, calou secretários e deputados mostrando o quadro dos professores da rede pública naquela região, o que não diferencia muito do resto do país.

Em seu depoimento, Gurgel mostrava o baixo salário, as condições precárias de um professor assim como as da escola pública e pedia objetividade política para a solução desses problemas.

O Brasil é carente de professores mais bem empenhados, de melhores estruturas escolares e de transporte, de alunos bem alimentados para conseguirem aprender, de mais leitura, de aulas interessantes, da escola como porta aberta para o mundo; e não de cotas sociais. Porém, enquanto o Papai Noel não chega, “é o que tem para hoje”.