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O ronco

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Há muitos anos divido o quarto com meu primo e tio e a preocupação é sempre a mesma: temos que dormir antes do meu tio, porque depois complica.. Não que ele seja um homem agressivo, longe disso, ele é um simpático gordinho que gentilmente cede a casa – até o quarto – para mim, que tive de viver só, desde os 7 anos. Já me acostumei, mas no começo era dificil.
Uma vez, quando fazia uns 5 anos que morava lá, era moleque e queria dormir, mas tio Zé não me deixava, fiz a besteira de ir pra cama depois dele e recebi meu ‘castigo’: o maldito ronco do queridão. Parece um porco com dores abdominais, ou um trator inguiçado, não sei, talvez a mistura dos dois; só sei que é infernal e deixa qualquer cidadão de bem com vontade de matar o causador da moléstia. Bem, tentando dormir, pensava em algum jeito de parar com aquilo, quando tive a brilhante idéia de dar pequenos chutes em sua cama, já que esta ficava bem ao lado da minha.. Era assim: ele roncava com mais ênfase e eu chutava; ele parava, mas logo retomava o fôlego e começava novamente; eu chutava, ele pausava e retomava..até que chegou uma hora em que ele, de saco cheio, falou: Porra! Dá pra parar de chutar minha cama? Tô tentando dormir!! – Se ele estava tentando, imagina eu !
Bom, passada essa noite quase em claro, tinha que armar algum método mais eficiente, porque chutar a cama não adiantava e se entrasse no quarto fazendo barulhos ele acordaria bravo de novo.. O que fazer? Eu, o prejudicado da história, me passando por vilão só pra conseguir uma noite de sono. Isso não tem cabimento!
No dia seguinte fui deitar mais cedo que ele, pra não correr o risco, mas o fato da noite anterior me impactou de tal forma que fiquei traumatizado e não conseguia dormir. Pois bem, ele chegou, deitou e começou a barulheira.. Entre um rolar e outro na cama, já com sono, só esperando ele parar um segundo pra que conseguisse dormir, me veio a magnífica idéia que salvou minha noite.. Lembrei de uma marca de meu pai, que era falar enquanto dormia. Parece que era algo hereditário, mas era coisa rara entre os filhos, eu mesmo tive uns dois episódios assim. Esse seria o terceiro.
Sem esperar mais nem um minuto, como uma múmia, só levantei meu tronco e falei bem alto “NÃO! EU NÃO POSSO SER ROUBADO! NÃAOO!!” e, ofegante, deitei e ouvi: Puta merda hein Pedro, pra que berrar no meio da noite, me acord.. e antes d’ele terminar a frase, meu primo, que acordou assustado, me defende: Não, pai, ele fala enquanto dorme mesmo, coitado! Nem rasgue com ele..
Pronto! Depois disso meu tio demorou mais uns 5 minutos pra dormir, tempo suficiente para eu pegar no sono e pensar “De hoje em diante, tenho um distúrbio: falo enquanto durmo (na casa do meu tio)!”

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