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O que Paraitinga tem?

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Marília Monteiro

3:27 AM: Chegamos na então misteriosa São Luiz do Paraitinga. A parte central da cidade silenciava, como em toda boa madrugada, onde deu para ter as primeiras impressões daquele lugar: tranquilo e bonito. O dia chegou e com ele a vontade de desbravar aquele pequeno local aparentemente marasmático, que abriga aproximadamente 11 mil habitantes. O que teria Paraitinga de tão especial?

Bem, essa pergunta ainda nos é válida, mas podemos ter algumas razões bem convincentes para tentar respondê-la.

A começar por uma hospitalidade jamais vista em toda nossa breve vida de viajante: conhecemos uma moradora da cidade, que nos guiou por todos os lugares e nos ajudou despretensiosamente – apenas sabendo de nossas intenções acadêmicas -, mas assim, sem perguntar conta bancária, ou se vínhamos de boa família.

E foi assim com todos que conversamos. Sem exceção e sem figura de linguagem: abriram as portas para as forasteiras ituanas entrarem e se sentirem completamente em casa, com cheirinho de café, bolo e feijão no fogo.

A enchente de 2010 demoliu várias casas da parte baixa da cidade, sendo necessária completa reconstrução, que em apenas dois anos floresce novinha, com tinta quase fresca, nos inserindo numa espécie de maquete em tamanho real. O centro é forrado de casas novas e coloridas – sim, pintadas de rosa, verde, azul, marrom, amarelo; mas tudo combinando e sem poluição visual.

Aliás, poluição é uma palavra que passa longe da cidade, que abriga uma serra cheia de árvores, o rio Paraitinga e ruas repletas de… gente! Pouca quantidade de carro, que espera pacienciosamente o transeunte se afastar de seu espaço, para assim poder seguir, sem buzinas, sem xingamento, sem pressa.

Confessamos que nunca tínhamos ido à cidade, não sabíamos nada sobre sua história e foi aí que nos questionamos, como no início do texto, sem imaginar que encontraríamos as respostas de maneira mais agradável impossível.

São Luiz do Paraitinga é um local que parece ser isolado do mundo que a gente conhece. Lá o estresse típico das capitais não chega, lá as portas não carregam correntes pesadas e cadeados, os velhinhos passeiam livremente pela rua, todos se conhecem, especialmente depois da enchente.

Essa catástrofe natural, fruto de uma tromba d’água próxima à cidade, serviu para criar um laço entre os conterrâneos que ainda não se conheciam, colocando na mesma linha, crianças, velhos, ricos, pobres, negros e brancos. De um lado era abrir as portas para o socorro, de outro, encontrar abrigo e um banho quente cedido com uma dose de piedade, por quem teve a graça de não ver seus pertences boiarem pela casa, que enchia 70 centímetros por hora naquela noite. Os próprios moradores concordam que a união e a mobilização ocorrida nesses dois últimos anos ajudou para que a cidade tivesse essa cara de vila fraternal.

O tempo nessa cidade passa devagar, como que a caminhar pelos ponteiros do relógio, e não a voar feito um jato, da maneira que vemos por aqui. Fato comprovado por outros visitantes, para que não pensem que estamos encantadas demais.

É, meus caros, coube ao Divino Espírito Santo carregar todos os pedidos de fé daquele povo que sofreu, mas se ergueu rapidamente, e que também atribuiu toda sua força ao Santo Espírito celebrado tão fielmente todos os anos.

A festa é grandiosa e até chegar o domingo de Pentecostes, o ano para os luizenses contornou os bordados, as danças, as comidas e as preparações para o Divino, deixando até o Carnaval – que é fervorosamente festejado na cidade – trabalhando em função da festa do Santo. Parte do que se arrecadava nesse festejo, foi para as despesas da festa religiosa.

Ao perguntar aos membros da família festeira, que organizou absolutamente toda a festa, como eles aguentavam ficar o dia inteiro trabalhando para que tudo saísse perfeito, a resposta era unânime: “A força do Divino Espírito Santo é maior do que qualquer cansaço”.

A festa, a energia dessa cidade e esse povo são unificados, dependendo um do outro numa aliança de esperança, paz e força, muita força. É de encher os olhos de beleza e lágrimas, que caem naturalmente ao presenciar essa rara magia encontrada em São Luiz do Paraitinga, e até mesmo em relembrá-la com um aperto no peito e uma vontade de ficar um pouco mais.

Paraitinga

Foto por Marília Monteiro

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mais uma dessas coisas que eu penso…

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Agora mesmo posso sentir a sensação que tenho quando entro no avião e mais acentuada quando saio. Fui, disse que ia voltar e voltei. O tempo não foi o esperado, porém suficiente.
Conheci gente nova, interessante e bonita. Culturas diferentes e opiniões variadas, um arranque para uma cabeça mais completa, que sonha com o mundo e suas descobertas. Quero mais! – sem parecer propaganda de gelatina.

Mal cheguei e já estão me tocando pra fora de casa, tenho que me mexer e começar de fato minha vida. A minha. A que eu faço e dito minhas regras, conforme manda o sistema: trabalhar, estudar e morar fora de casa, a chamada independência. Eu acredito que isso tudo está muito massificado, como: a sociedade diz o que tem que ser e assim é, sem mais. Sem discutir, como diria minha mãe me dando uma lição de moral. Mas espera um pouco. Se é o sistema quem dita, onde fica minha independência e liberdade?

A verdade é que temos uma pseudo liberdade, como um subordinado, que “faz o que quiser” dentro das normas do patrão. Se o fizer bem feito, ganha, porém se o fizer mal feito, ninguém tem piedade e te absolve de seus pecados, e pior ainda se não se mover pra nada.
Por esse bem-colocado exemplo se pode ter uma idéia sobre a vida e suas obrigações, que são sempre nesse formato. Entre os humanos não existe o mais poderoso de todos, porque sempre vai ter alguém ou alguma coisa que te fode a vida se você não fizer o que este pede, é sempre fôrma em cima de fôrma, sem fim e sem saída. Todos têm que faze-lo se não não vive, vegeta e apodrece.
Eu já tive um pensamento mais radical, nos meus tempos de descobrimento da adolescencia, aquele pré adolescente chato que responde a tudo e todos com ácidas palavras e achando que o mundo era muito ruim e que eu não iria fazer parte disso, eu quebraria o sistema e viveria da minha forma.
Hoje sou mais pacífica em relação à isso. Uma pessoa não sobrevive se não utilizar nem um mínimo do sistema e consequentemente fazer parte dele.

Se fosse analisar friamente, morreria de depressão achando que nada vale a pena, mas, de uma forma covarde, como que para fugir disso, prefiro analisar calorosamente e
sonho mais acordada que dormindo.

texto publicado em 19/03/2008 - logo após a volta da viagem

texto publicado em 19/03/2008 - logo após a volta da viagem

Eu vou..

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.. No mais, recomeço é partida. De uma vida para outra, desencarne; mudança..

E sempre que alguém o comete há quem chore de tristeza, há quem chore de alegria, uns sorriem por amor, outros de inveja. Inveja da coragem alheia sobre a decisão de mudar, nada sobre condições.
Mudar é transformar e só de querer isto, já me sinto sendo quem sou.
Aos amigos a fala é simples: volto sim, com a precisão e certeza de um raio numa tempestade; meu sorriso e felicidade não caberão nas malas, mas os trago do mesmo jeito num abraço apertado. Não que agora eu não os ofereça a vocês, porém será diferente, mudado.
Recomeço!
Antes que o fato vire drama, deixo bem claro a importância das pessoas que, do mesmo modo que quero fazer, transformaram meus pequenos olhos em grandes faíscas de felicidade e me fizeram saber que a vida é maravilhosa.
Viva meus amigos; pessoas queridas e suas digitais na minha história!
Vamos, antes que a coragem fuja e a acomodação venha, foi me dada uma oportunidade e a aproveitarei,
vou alí recomeçar, já volto..
texto publicado em 05/02/2008, dias antes da viagem à Espanha

texto publicado em 05/02/2008, dias antes da viagem à Espanha